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#1795945
Texto da Questão:

As Boas Coisas da Vida
Rubem Braga

Uma revista mais ou menos frívola pediu a várias pessoas para dizer as “dez coisas que fazem a vida valer a pena”. Sem pensar demasiado, fiz esta pequena lista:

- Esbarrar às vezes com certas comidas da infância, por exemplo: aipim cozido, ainda quente, com melado de cana que vem numa garrafa cuja rolha é um sabugo de milho. O sabugo dará um certo gosto ao melado? Dá: gosto de infância, de tarde na fazenda.

- Tomar um banho excelente num bom hotel, vestir uma roupa confortável e sair pela primeira vez pelas ruas de uma cidade estranha, achando que ali vão acontecer coisas surpreendentes e lindas. E acontecerem.

- Quando você vai andando por um lugar e há um bate-bola, sentir que a bola vem para o seu lado e, de repente, dar um chute perfeito – e ser aplaudido pelos serventes de pedreiro.

- Ler pela primeira vez um poema realmente bom. Ou um pedaço de prosa, daqueles que dão inveja na gente e vontade de reler.

- Aquele momento em que você sente que de um velho amor ficou uma grande amizade – ou que uma grande amizade está virando, de repente, amor. - Sentir que você deixou de gostar de uma mulher que, afinal, para você, era apenas aflição de espírito e frustração da carne – essa amaldiçoada.
- Viajar, partir…
- Voltar.

- Quando se vive na Europa, voltar para Paris, quando se vive no Brasil, voltar para o Rio. - Pensar que, por pior que estejam as coisas, há sempre uma solução, a morte – o assim chamado descanso eterno.

Texto adaptado de BRAGA, R., As Boas Coisas da Vida, 1988. 

Tomemos o título “As Boas Coisas da vida”. Sabemos que a palavra “coisa” pode carregar diversos significados, dependendo do contexto. A partir dessa observação, numa leitura interpretativa, é possível afirmar que:

  • O autor consegue apropriar-se de um tema explorado por uma revista, de modo frívolo, e desconstruir ainda mais a palavra “coisa”, mostrando a inutilidade de tudo diante do sofrimento da morte.
  • O emprego da palavra “coisa” serve para banalizar o tema, assim como na revista, a fim de tratá-lo com superficialidade, buscando motivos corriqueiros que nos propiciam um falso enlevo, a sensação de felicidade.
  • O potencial semântico de “coisa” permite, ao autor, incluir, em seus reduzidos dez itens, um rico leque de motivos para percorrer bons momentos de vida, que vão dos sabores da infância ao descanso eterno.
  • O cronista procura ressaltar as belezas da vida, juntando “coisas”, e aproveitando para listar, exclusivamente, assuntos frívolos, que mobilizam os brasileiros, como, por exemplo, a alegria do jogo de futebol.
  • A lista de “coisas” parece uma confissão do autor sobre temas, bem frívolos, que o mobilizam, como comida, futebol, mulher, revelando o desejo de uma autoanálise.
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