Texto 1
Na planície avermelhada os juazeiros alargavam
duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia
inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente
andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na
areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia
horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros
apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala.
Arrastaram-se para lá, devagar, Sinha Vitória com o
filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na
cabeça, Fabiano sombrio, cambaio, o aió a tiracolo, a cuia
pendurada numa correia presa ao cinturão, a espingarda de
pederneira no ombro. O menino mais velho e a cachorra Baleia
iam atrás. Os juazeiros aproximaram-se, recuaram, sumiramse...
As manchas dos juazeiros tornaram a aparecer,
Fabiano aligeirou o passo, esqueceu a fome, a canseira e os
ferimentos. As alpercatas dele estavam gastas nos saltos, e a
embira tinha-lhe aberto entre os dedos rachaduras muito
dolorosas. Os calcanhares, duros como cascos, gretavam-se
e sangravam.
Num cotovelo do caminho avistou um canto de cerca,
encheu-o a esperança de achar comida, sentiu desejo de
cantar...
RAMOS. Graciliano. Vidas Secas. Rio de Janeiro: Record, 2021.
Texto 2
PORTINARI, Cândido. Retirantes, 1944. Óleo sobre tela, 190 X 180 cm.
Disponível em: https://masp.org.br/acervo/obra/retirantes. Acesso em
04/02/2025.
O texto literário e a pintura são manifestações artísticas
diferentes que abordam a mesma temática. Ambos
apresentam a profunda reflexão sobre a