“Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e
realço a minha mediocridade; advirta que a franqueza é a
primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o
contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente
a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos,
a não estender ao mundo as revelações que faz à
consciência; e o melhor da obrigação é quando, à força de
embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo,
porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação
penosa, e a hipocrisia, que é um vício hediondo. Mas, na
morte, que diferença! que desabafo! que liberdade! Como a
gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lentejoulas,
despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar
lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma,
já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem
conhecidos, nem estranhos, não há plateia”.
(Machado de Assis, no livro “Memórias póstumas de Brás Cubas”)
A franqueza mencionada pelo narrador é descrita como
a primeira virtude de um defunto. O que essa franqueza
permite ao narrador, conforme expresso no texto?
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