As pessoas que vivem em sociedades com uma longa tradição escrita,
com uma história literária de muitos séculos e um sistema educacional
organizado se acostumaram a ter uma ideia de uma língua muito
influenciada por todas essas instituições. Para elas, só merece o nome
de língua um conjunto muito particular de pronúncias, de palavras e de
regras gramaticais que foram cuidadosamente selecionadas para compor o que vamos chamar nesse livro aqui de norma-padrão, isto é, o
modelo de língua “certa”, de “bem falar” que, nessas sociedades, constitui uma espécie de tesouro nacional, de patrimônio cultural que, assim
como as florestas, os rios, a flora, a fauna e os monumentos arquitetônicos, precisaria ser preservado da ruína e da extinção...
Ora, a escrita, a literatura e a escola são instituições eminentemente
sociais, são invenções culturais, criações artificiais e muito recentes na
história da humanidade ̶ as formas mais antigas de escrita têm menos
de 56.000 anos, ou seja, durante 99% da história da nossa espécie
ninguém escreveu nem leu nada, e até hoje uma grande parcela dos
seres humanos permanece assim, excluída da escrita e da leitura!
Portanto, o que se convencionou chamar de “língua” nas sociedades
letradas é, na verdade, um produto social, artificial, que não corresponde àquilo que a língua realmente é. Mas será que a gente pode
mesmo pensar nesse modelo de língua como um produto, semelhante
ao iogurte, ao vinho, à borracha, ao papel, ao azeite e a tantas outras
invenções humanas? Pode, mas com uma diferença: essa “língua” é
um produto de um tipo diferente, um produto sociocultural, elaborado
ao longo de muito tempo, pelo esforço de muita gente ̶ por isso ela é
uma abstração ou, como se diz hoje em dia, um patrimônio imaterial.
Bom, então, se o que nós chamamos de “língua” é só uma aparência,
uma ilusão nascida dos nossos hábitos culturais e das nossas relações
sociais, como é a língua, de fato?
A realidade heterogênea das línguas
Ao contrário da norma-padrão, que é tradicionalmente concebida como
um produto homogêneo, como um jogo de armar em que todas as peças se encaixam perfeitamente umas nas outras, sem faltar nenhuma,
a língua, na concepção dos sociolinguistas, é intrinsecamente heterogênea, múltipla, variável, instável e está sempre em desconstrução e
reconstrução. Ao contrário de um produto pronto e acabado, de um
monumento histórico feito de pedra e cimento, a língua é um processo,
um fazer-se permanente e nunca concluído. A língua é uma atividade
social, um trabalho coletivo, empreendido por todos os seus falantes,
cada vez que eles se põem a interagir por meio da fala ou da escrita.
Justamente pelo caráter heterogêneo, instável e mutante das línguas
humanas, a grande maioria das pessoas acha muito mais confortável
e tranquilizador pensar na língua como algo que já terminou de se
construir, como uma ponte firme e sólida, por onde a gente pode caminhar sem medo de cair e de se afogar na correnteza vertiginosa que
corre lá embaixo. Mas essa ponte não é feita de concreto, é feita de
abstrato... O real estado da língua é o das águas de um rio, que nunca param de correr e de se agitar, que sobem e descem conforme o regime das chuvas, sujeitas a se precipitar por cachoeiras, a se estreitar
entre as montanhas e a se alargar pelas planícies...
Também ao contrário do que muita gente acredita, a língua não está
registrada por inteiro nos dicionários, nem suas regras de funcionamento são exatamente (nem somente) aquelas que aparecem nos livros chamados gramáticas. É mais ilusão social acreditar que é possível encerrar num único livro a verdade definitiva e eterna sobre uma
língua.
Com tudo isso, a gente está querendo dizer que, na contramão das
crenças mais difundidas, a variação e a mudança linguísticas é que são
o “estado natural” das línguas, o seu jeito próprio de ser. Se a língua é
falada por seres humanos que vivem em sociedades, se esses seres
humanos e essas sociedades são sempre, em qualquer lugar e em
qualquer época, heterogêneos, diversificados, instáveis, sujeitos a conflitos e a transformações, o estranho, o paradoxal, o impensável seria
justamente que as línguas permanecessem estáveis e homogêneas!
Fonte: BAGNO, Marcos. Nada na Língua é por acaso.
São Paulo: Parábola Editorial, 2007, p. 35-37.
Atente para os excertos, em que foram destacados alguns vocábulos e propostos sinônimos para eles:
I. ... a escrita, a literatura e a escola são instituições eminentemente
sociais, ... > ... a escrita, a literatura e a escola são instituições urgentemente sociais, ...
II. A realidade heterogênea das línguas > A realidade variada das línguas
III. ... um produto homogêneo ... > ... um produto complicado ...
IV. ... afogar na correnteza vertiginosa que corre lá embaixo. > ... afogar na correnteza descontrolada que corre lá embaixo.
Estão CORRETOS apenas os sinônimos apresentados em
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