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#1987478
Texto da Questão:

Os textos VIII e IX, motivadores, o(a) auxiliarão a responder à questão.


TEXTO VIII 


      Na busca por definir critérios para fixar uma escrita convencionalizada, observamos que as muitas línguas com notação alfabética enfrentaram, desde a Antiguidade, uma disputa entre opções (cf. BLANCHE-BENVENISTE; CHERVEL, 1974). Por um lado, desde a Roma e a Grécia antigas, já existia tendência de buscar respeitar o princípio fonográfico, segundo o qual a ortografia deveria estar o mais próxima possível da pronúncia das palavras. Apesar das boas intenções, isso envolvia um problema sem solução perfeita: se diferentes falantes de uma mesma língua – pertencentes a regiões, grupos socioculturais e épocas diferentes – pronunciam de forma distinta as mesmas palavras, a busca de uma correspondência “limpa” entre formas de falar e escrever teria sempre que partir de uma pronúncia idealizada, tomada como padrão. Por outro lado, encontramos há muitos séculos a defesa de um princípio etimológico, segundo o qual as palavras provenientes de outra língua deveriam preservar as grafias que tinham nas línguas de origem. Assim, no caso de línguas como português, francês e espanhol, as formas latinas e gregas seriam candidatas especiais à manutenção de suas notações originais (e a uma desobediência do princípio fonográfico).

      Finalmente, nessa disputa entre perspectivas diferentes, a história de evolução das normas ortográficas das línguas aqui mencionadas revela que não só tendeu-se a fazer um “casamento” dos dois princípios (fonográfico e etimológico) já citados, como a incorporar formas escritas que surgiram por mera tradição de uso. 

      Tudo em ortografia precisa ser visto, consequentemente, como fruto de uma convenção arbitrada / negociada ao longo da História. Mesmo a separação das palavras no texto, com espaços em branco, é uma invenção recente, bem como o emprego sistemático de sinais de pontuação. Até o século XVIII, quando predominava a leitura em voz alta, muitos textos eram notados com as palavras “pegadas”. Como também tinham poucos sinais de pontuação, cabia ao leitor, ao “preparar” sua leitura, definir como iria segmentar o texto. Numa língua como o português, vemos hoje que a norma ortográfica envolve não só a definição das letras autorizadas para escrever-se cada palavra, como também a segmentação destas no texto e o emprego da acentuação. 

      Diferentemente da pontuação – que permite opções / variações conforme o estilo ou interesse de quem escreve –, no caso da ortografia as convenções estabelecidas são avaliadas taxativamente: a grafia de uma palavra ou está certa ou errada, não se julgando sua qualidade em termos de “aproximação” do esperado (MORAIS, 1998; SILVA, 2004).


(MORAIS, Arthur Gomes. A norma ortográfica do português: o que é? para que serve? como está organizada? In: SILVA, Alexsandro; MORAIS, Arthur G.; MELO, Kátia L. R. Ortografia na sala de aula. Belo Horizonte: Autêntica, 2005. Disponível em: http://www.serdigital.com.br/gerenciador/clientes/ceel/arquivos/25.pdf. Acesso em: 5 jan. 2018)


TEXTO IX


      Nosso objeto de estudo, a linguagem, mostra-se diferente aos olhos do observador, conforme ele a investigue. Por exemplo, como representação do pensamento, e este como representação do mundo. Entretanto, sabemos que, no uso cotidiano da língua, não pensamos conscientemente em formas para traduzir conteúdos, nem em conteúdos preexistentes que buscam formas. Forma e pensamento nascem juntos; nossos pensamentos e representações são feitos de palavras e se constroem, ou na interação contextualizada com o outro ou no diálogo interno com outros discursos também feitos de palavras. A referência à decodificação, presente nos PCN+, não pode nos induzir também ao engano de reduzir as línguas naturais — em particular, a língua portuguesa — a um sistema de sinais, por meio do qual um emissor comunica a um recebedor determinada mensagem.

      A partir dessa concepção, aprender e ensinar língua seria dominar o código, e a compreensão e a produção de textos se reduziriam ao processo de decodificação e codificação: para cada sinal ou combinação de sinais corresponderia um sentido. Sabemos que os enunciados produzidos nas línguas naturais têm uma parte material - os sons, no caso da língua oral, e as formas, no caso da escrita -, mas têm também uma parte subentendida, essencial para a produção de sentido na interação. Essa parte subentendida, digamos, “invisível”, está no contexto de produção do enunciado, em sua enunciação e co-enunciação, nos conhecimentos de mundo e nos valores partilhados pelos interlocutores.

(SEE MG. Currículo Básico Comum. Proposta Curricular. Língua Portuguesa - Ensinos Fundamental e Médio. 2005, p. 11- 12)

Assinale a afirmativa INCORRETA:

  • A ortografia, considerada como parte material nos textos escritos, é um dos poucos aspectos das línguas naturais passível de fixação de um padrão por convenção externa (mudanças por meio de leis, acordos, decretos). A constatação de alterações de grafias usadas e tidas como certas há algumas décadas evidencia a transitoriedade das convenções “arbitradas / negociadas ao longo da história”.
  • Aspectos referentes à ortografia, seja no âmbito lexical (idiossincrasias de itens lexicais) ou no gramatical (como as marcas morfológicas de concordância), fazem parte dos conhecimentos imprescindíveis à formação da competência comunicativa do estudante da educação básica. Trata-se de conteúdos que devem ser introduzidos nos anos iniciais, retomados e consolidados ao longo dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio, evitando que determinados erros de grafia persistam após finalização deste nível de educação escolar.
  • Comumente se afirma que, em nossa escrita, alfabética, as letras representariam “as unidades sonoras mínimas”, ou seja, os fonemas. Contudo, é preciso reconhecer que nem sempre há correspondência 1 letra = 1 fonema (ex. dígrafos); nem todas as oposições (ex.: pronúncias distintas do R inicial – como retroflexo ou glotal) são capazes de promover diferenças de significado, porém isso ocorre com a oposição entre as homorgânicas – como /f/ e /v/, /p/ e /b/, etc.
  • O ensino da ortografia como aspecto integrante da produção textual não se restringe a uma atividade mecânica de codificação da escrita: ao adotar determinada grafia, tanto o acerto quanto o erro evidenciam que há, por parte do aprendiz, uma reflexão na busca de fazer escolhas lexicais adequadas à sua intencionalidade (por exemplo, no caso de parônimos, da correta expressão de tempos e modos verbais, etc.
  • O trabalho com ortografia demanda treinos constantes, diários, visto que cada item que apresenta dificuldade precisa ser tratado de forma individualizada, num contexto específico. Isso inviabiliza a promoção de reflexões com base em regularidades, já que tais vocábulos apresentam motivações etimológicas e /ou fonológicas, ou seguem aspectos devidos à mera tradição do uso.
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