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Leia o trecho de O Manifesto ciborgue - ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX, ensaio de 1985, elaborado pela bióloga e filósofa Donna Haraway:

No final do século XX, neste nosso tempo, somos todos ciborgues, híbridos de máquina e organismo. O ciborgue é nossa ontologia e ele determina nossa política. Nas tradições da ciência e da política ocidentais (a tradição do capitalismo racista, dominado pelos homens; a tradição do progresso; a tradição da apropriação da natureza como matéria para a produção da cultura; a tradição da reprodução do eu a partir dos reflexos do outro), a relação entre organismo e máquina tem sido uma guerra de fronteiras. As coisas que estão em jogo nessa guerra de fronteiras são os territórios da produção, da reprodução e da imaginação. Este ensaio é um argumento em favor do prazer da confusão de fronteiras, bem como em favor da responsabilidade em sua construção.

Adaptado de Antropologia do ciborgue: as vertigens do pós-humano. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009.


A substituição da perspectiva antropocêntrica pelo ponto de vista ciborgue impacta o modo como é pensada a relação entre ciência, tecnologia e arte, pois

  • inverte a hierarquia entre os conceitos cultura/natureza ou tecnologia/biologia, com o predomínio dos primeiros sobre os segundos.
  • questiona a produção de subjetividades, ao refletir sobre a construção social de conceitos como homem, mulher, corpo e humano.
  • aprofunda a divisão teórica, cultural, acadêmica e institucional entre as artes, por um lado, e as ciências e tecnologias por outro lado.
  • anula o sentido humano do gesto criador, próprio da arte, enfraquecendo a capacidade imaginativa de fabular e criar novos significados e narrativas.
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