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#1833454
Texto da Questão:

                          Gatos, cães e gêneros literários


      Ao contrário dos cães, gatos não fazem festa nem estardalhaço, não são excessivamente carentes de afeto, podem dormir e sonhar por um século e esquecer o mundo ao redor. Não por acaso, um ditado chinês diz: “O cachorro é um romance, e o gato, um poema".

      Nesse sábio ditado oriental reside uma delicada definição de gêneros literários. Pense no cotidiano de um cão: as peripécias, o corre-corre, os momentos de exaltação e melancolia, ganidos de dor, saltos estabanados, ataques de raiva... Agora imagine o discreto cotidiano de um gato: a pose hierática, a atitude ensimesmada, o salto sem ruído, a expressão misteriosa do olhar, a repetição dos gestos, o olhar em transe, fitando as asas de um inofensivo beija-flor... O gato encarna uma subjetividade lírica que reitera o ditado chinês.

(Adaptado de: HATOUM, Milton. Um solitário à espreita. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 209)

Para bem compreender o ditado chinês referido no texto, deve-se associar ao

  • gato o esforço necessário para se compor uma narrativa atribulada, capaz de espelhar a inteira complexidade de uma vida.
  • cachorro o movimento premeditado de palavras meditadas longamente que atingem seu objetivo num único lance ardiloso, na convicção de atingir o alvo.
  • gato o aprofundamento característico de palavras que tanto nascem da interioridade do sujeito como se mostram aptas à ação súbita.
  • cachorro a orientação das expressões verbais mais contraditórias, armadas para figurarem as oscilações próprias da subjetividade dramática.
  • cachorro e ao gato as características complementares, que também ocorrem com um romance e com um poema, expressões da mesma personalidade.
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