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#2016640
Texto da Questão:

Atenção: A questão refere-se ao texto abaixo, atribuído a um dos heterônimos de Fernando Pessoa, Álvaro de Campos. 


 DATILOGRAFIA


Traço, sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano,

Firmo o projeto, aqui isolado,

Remoto até de quem eu sou.


Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,

O tique-taque estalado das máquinas de escrever.

Que náusea da vida!

Que abjeção esta regularidade!

Que sono este ser assim!


Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros

(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância),

Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,

Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,

Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.


Outrora.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,

O tique-taque estalado das máquinas de escrever.


Temos todos duas vidas:

A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,

E que continuamos sonhando, adultos, num substrato

                                                                          [de névoa;

A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,

Que é a prática, a útil,

Aquela em que acabam por nos meter num caixão.


Na outra não há caixões, nem mortes,

Há só ilustrações de infância:

Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;

Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.

Na outra somos nós,

Na outra vivemos;

Nesta morremos, que é o que viver quer dizer;

Neste momento, pela náusea, vivo na outra...


Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,

Ergue a voz o tique-taque estalado das máquinas de

                                                                        [escrever. 

Acerca da pontuação do poema, encontra respaldo no texto o seguinte comentário:

  • Os parênteses em(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância)acolhem informação não só incerta como também tomada como irrelevante pelo poeta.
  • O versoOutrora. recebeu pontuação que reforça o sentido da palavra.
  • Os dois-pontos emHá só ilustrações de infância: são seguidos de uma síntese, por meio de outras palavras, do mesmo conteúdo expresso neste verso.
  • O uso das vírgulas emOutrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho, é um preciosismo de estilo, já que a sintaxe não é, aí, levada em conta.
  • A presença de vírgula emGrandes livros coloridos,para ver mas não ler; é equívoco que o poeta corrige no verso seguinte (Grandes páginas de corespara recordar mais tarde), que tem a mesma estrutura sintática.
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