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#2886823
Texto da Questão:

A arte de não fazer nada

Dizem-me que mais da metade da humanidade se
dedica à prática dessa arte; mas eu, que apenas recente e
provisoriamente a estou experimentando, discordo um pouco
dessa afirmativa. Não existe tal quantidade de gente
completamente inativa: o que acontece é estar essa gente
interessada em atividades exclusivamente pessoais, sem
consequências úteis para o resto do mundo.

Aqui me encontro num excelente posto de observação: o
lago, em frente à janela, está sendo percorrido pelos botes
vermelhos em que mesmo a pessoa que vai remando parece
não estar fazendo nada. Mas o que verdadeiramente está
acontecendo, nós, espectadores, não sabemos: cada um pode
estar vivendo o seu drama ou o seu romance, o que já é fazer
alguma coisa, embora tais vivências em nada nos afetem.

E não posso dizer que não estejam fazendo nada
aqueles que passam a cavalo, subindo e descendo ladeiras,
atentos ao trote ou ao galope do animal.

Há homens longamente parados a olhar os patos na
água. Esses, dir-se-ia que não fazem mesmo absolutamente
nada: chapeuzinho de palha, cigarro na boca, ali se deixam
ficar, como sem passado nem futuro, unicamente reduzidos
àquela contemplação. Mas quem sabe a lição que estão
recebendo dos patos, desse viver anfíbio, desse destino de
navegar com remos próprios, dessa obediência de seguirem
todos juntos, enfileirados, para a noite que conhecem, no
pequeno bosque arredondado? Pode ser um grande trabalho
interior, o desses homens simples, aparentemente desocupados,
à beira de um lago tranquilo. De muitas experiências
contemplativas se constrói a sabedoria, como a poesia. E não
sabemos ? nem eles mesmos sabem ? se este homem não vai
aplicar um dia o que neste momento aprende, calado e quieto,
como se não estivesse fazendo nada, absolutamente nada.

(Cecília Meireles, O que se diz e o que se entende)







Está clara e correta a redação deste livre comentário sobre o texto:

  • Cecília Meireles, nessa crônica, considera que a arte de não fazer nada é muito enganosa, sendo frequente que aconteça o contrário.
  • Nessa crônica, Cecília Meireles não deixa de fazer uma defesa do ócio, conquanto ele seja útil, ao menos para aquele que lhe diz respeito.
  • Contra a ideia de que a desocupação é uma tarefa inútil, Cecília Meireles prefere defender que nem todo trabalho deixa de ter consequências.
  • Cronista e poetisa sensível, Cecília Meireles não despreza os momentos onde ficamos absortos, aprendendo e desfrutando com a vida.
  • Sendo também poetisa, a cronista Cecília Meireles valoriza, em seu texto, aquele tipo de aprendizado que deriva das horas de contemplação.
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