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#2634441

“Fatal foi teres chegado de manhãzinha, teus olhos de sono, quando ainda a cidade se espreguiçava e teres visto o casario, as ruelas tortuosas, os homens a gritar nomes e coisas.


[...]

Ao saltares dessas águas barrentas, ao abandonares sem saudade, rápido se perdeu o teu barco entre os tantos aportados naquele cais. Fatal foi tropeçares e seguires aos solavancos pelas ruas achando que eram de boas-vindas os olhares. Ao pé do casarão mal iluminado fatal foi pensares que ofereciam vida nova, pois ouviste os sinos.

A família dormia ainda. Soubeste logo que havia menino, que havia menina, um doutor e sua mulher a quem devias servir, branca e alta mulher.

[...]

Diante da mão espalmada, retorno ao meu ofício e aceito ler teu destino mas, te adianto, não vejo mais - pesada hora - rastro sequer de fortuna, perdeu‐se a do coração.

Cheia de pejo e de dó vou te esconder, Ó senhora, que fatal foi te roubarem a linha da vida.”


Sobre o trecho acima, retirado do conto “Velas. Por quem?”, de Maria Lúcia Medeiros (1990, p. 11-13), pode-se afirmar que

  • ao revelar as origens urbanas da personagem principal, a autora denuncia que as grandes cidades também comportam uma população marginalizada e que não tem acesso aos direitos básicos de cidadania.
  • uma narradora, em terceira pessoa, que parece ser uma quiromante, anuncia a um grupo de espectadores qual seria o futuro da menina que acaba de desembarcar do interior para trabalhar numa “casa de família”.
  • Maria Lúcia Medeiros, como representante do movimento Neorrealista, aborda um tema social sensível do trabalho escravo moderno através de uma linguagem direta e denotativa, de matiz dito “jornalístico”.
  • o mercado, descrito logo nas primeiras cenas do conto como símbolo de uma sociedade em que a vida humana é trocada por dinheiro, é o espaço em que a maioria da narrativa se desenrola.
  • a narradora, em primeira pessoa, dirige-se diretamente à personagem central do conto por tu, o que provoca, como efeito de sentido, um reforço na identificação entre o leitor e a menina que chegava para trabalhar numa “casa de família”.
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