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#2206973

A Revista Piauí, no ano do Bicentenário da Independência do país, revisita a história brasileira de acordo com uma perspectiva afrocentrada. O trecho da reportagem a seguir integra o Projeto Querino, liderado pelo jornalista Tiago Rogero.

Durante décadas, milhões de mulheres, sobretudo negras, viveram nos quartos de empregadas no Brasil, às vezes com um filho ou uma filha. Muitas ainda vivem. [...]


O quarto da revolta


folha de papel branco sobre a mesa da sala de uma casa simples na Baixada Fluminense, João Miguel Araújo, de 41 anos, desenha de memória o quartinho de empregada em que viveu por quase vinte anos com a mãe. “Devia ter 1,80 por 2 metros. Dá o quê? [...]”, ele calcula, enquanto risca o papel. “Cabia um beliche, um armário pequeno e a máquina de lavar da família.

E não tinha janela, só um basculante”, conta, agora desenhando o mobiliário. [...] À medida que o garoto crescia, o quartinho ficava menor. Ainda hoje, Araújo se lembra de quando ficava sentado entre a cozinha e a área de serviço, vendo a mãe trabalhar. “Sempre que sinto cheiro de água sanitária, eu me lembro de minha mãe. Ela estava sempre com esse cheirinho”. No pedaço de chão que sobrava para circular no quartinho, ele se divertia com os brinquedos que tinha: pedaços de madeira, caixas de fósforo vazias e outros materiais descartados na casa.

Piauí, ed. 191, ago. 2022 (fragmento).


Com base no texto apresentado, é correto afirmar que 

  • o trabalho doméstico apresenta uma marca sobretudo de classe e gênero, evidenciando que o Brasil do século XXI não conseguiu romper com a sua herança escravocrata: o país herdou do passado colonial, imperial e escravista, a desigualdade econômica como um legado que persiste até os dias atuais.
  • a diversidade é a marca do processo histórico da constituição do povo brasileiro; todavia, a desigualdade racial é uma característica da sociedade, oriunda de ações pontuais de grupos ou de indivíduos específicos que a mantêm no processo de subalternização do outro, inclusive no mercado de trabalho.
  • as relações sociais do trabalho doméstico são vinculadas à dinâmica racial que se estabeleceu após Abolição da Escravatura, a partir de 1888; hoje, o trabalho doméstico análogo à condição de escravo é passado, já que os empregados possuem os mesmos direitos que os demais trabalhadores urbanos e rurais.
  • ao analisar o “quartinho de empregada”, considerando os aspectos de cunho histórico, cultural, social e econômico que o permeiam, ele configura-se como um espaço de segregação espacial e social subsecivo dos tempos coloniais, reflexo de um racismo estrutural.
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