Ora bem, faz hoje um ano que voltei definitivamente da
Europa. O que me lembrou esta data foi, estando a beber café, o
pregão de um vendedor de vassouras e espanadores: “Vai
vassouras! vai espanadores!”. Costumo ouvi-lo outras manhãs,
mas desta vez trouxe-me à memória o dia do desembarque,
quando cheguei aposentado à minha terra, ao meu Catete, à
minha língua. Era o mesmo que ouvi há um ano, em 1887, e
talvez fosse a mesma boca. Durante os meus trinta e tantos anos
de diplomacia algumas vezes vim ao Brasil, com licença. O mais
do tempo vivi fora, em várias partes, e não foi pouco. Cuidei que
não acabaria de me habituar novamente a esta outra vida de cá.
Pois acabei. Certamente ainda me lembram coisas e pessoas de
longe, diversões, paisagens, costumes, mas não morro de
saudades por nada. Aqui estou, aqui vivo, aqui morrerei.
Machado de Assis. Memorial de Aires. In: Aluizio Leite, Ana Lima Cecília,
Heloisa Jahn, Rodrigo Lacerda (org.). Machado de Assis: obra completa
em quatro volumes, v. 1. São Paulo: Nova Aguilar, 2015, p.1.197.
Julgue o item seguinte, com base no texto precedente.
A relação entre Europa e Brasil apresentada no texto pela
experiência diplomática do narrador distancia-se da dialética
formativa da literatura e do povo brasileiro: cosmopolitismo
e localismo.
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