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CESPE / CEBRASPE - 2025 - EMBRAPA - Analista - Área: Transferência de Tecnologia e Comunicação - Subárea: Gestão da Propriedade Intelectual Para a Inovação
São dois pinheiros altos, e atrás deles o mar. Na linha do
horizonte, as linhas parecem estar boiando, nessa luz indecisa
da manhã de inverno.
O homem lança um olhar apressado à paisagem cheia
de vento e de sol, e se volta para o interior do apartamento;
precisa providenciar as instalações elétricas; um amigo lhe disse
uma coisa horrendamente prosaica, a saber: convém trocar o ralo
do chuveiro por um desses que se pode fechar, porque assim é
evitado o ingresso de baratas. É preciso pensar nisso; e também
onde colocar o telefone; e em providenciar o telefone para ser
colocado. (...) O colchão não veio? Mas ficaram de mandar trazer
no sábado, sem falta. Ali está a cama nua; ali, homem, em breve
tu dormirás, amarás, sonharás, morrerás talvez, quem sabe?
Assim, dentro do apartamento, só existem problemas;
entediado, o homem se volta para a varanda, para o mar. Em
alguns minutos, houve um movimento de nuvens e de luz; há
manchas verdes, três ou quatro, perto das ilhas que estão mais
nítidas; parece que se ergueram um pouco no horizonte. Que
planura terrena, que montanha imponente, que paisagem no
mundo vale o mar? Não o mar do alto-mar, mas esse mar de
costa e ilhas, sempre investindo sobre as pedras e sobre as terras,
esse que leva homens e coisas dos homens, que recebe plantas
que descem os rios boiando, esse mar humano e vivo, e
entretanto batendo aos nossos pés a canção do eterno, chamando
para o desconhecido, anunciando ao nosso mundo que este
mundo não tem fim.
Chega o porteiro, diz algumas coisas sobre calafates e
ladrilhos, água e contrato. O homem desce lentamente, vai
andando, encontra um amigo na esquina, o amigo pergunta se é
verdade que ele agora vai morar ali no bairro, em que
apartamento. Ele responde qualquer coisa, diz que é um
apartamento pequeno, que ainda está arrumando, que não tem
habite-se, mas dentro dele, consigo mesmo, ele pensa apenas: são
dois pinheiros grandes e, atrás deles, o mar.
Rubem Braga. Dois pinheiros e o mar: e outras crônicas sobre o meio ambiente.
São Paulo: Global, 2017 (com adaptações).
Em relação às ideias e aos aspectos linguísticos do texto anterior, julgue o item seguinte.
No texto, que se caracteriza como uma crônica, predominam
sequências tipológicas narrativas.
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