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#3219627
Texto da Questão:

Texto 42A2-II



Cunhantã 



Vinha do Pará.


Chamava Siquê.


Quatro anos. Escurinha. O riso gutural da raça.


Piá branca nenhuma corria mais do que ela. 



Tinha uma cicatriz no meio da testa:


― Que foi isto, Siquê?


Com voz de detrás da garganta, a boquinha tuíra:


― Minha mãe (a madrasta) estava costurando


Disse vai ver se tem fogo


Eu soprei eu soprei eu soprei não vi fogo


Aí ela se levantou e esfregou com minha cabeça na brasa 


Riu, riu, riu 



Uêrêquitáua.


O ventilador era a coisa que roda.


Quando se machucava, dizia: Ai Zizus!


Manuel Bandeira. Libertinagem. In: Manuel Bandeira: poesia completa e prosa.


Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1990, p. 216.



Vocabulário:


cunhantã – (tupi-guarani) menina, moça.


piá – menino(a) mestiço(a) de indígena com branco.


tuíra – de cor indefinida, preto desbotado, pardo. 

Assinale a opção correta em relação ao texto 42A2-II. 

  • A representação da cultura popular brasileira reside não somente no assunto, mas também na oralidade da linguagem do poema, a exemplo das repetições que dão ênfase a ações (v. 10 e 12), a ausência de pontuação (v. 9 e 10) e a imitação da variação fonética da pronúncia de palavras (v. 15) das falas da menina “Siquê”, que colaboram para a sua caracterização.
  • Os diminutivos, nas duas ocorrências (v. 3 e 7), além de caracterizarem uma menina pequena, ganham também tonalidades afetivas, pois refletem a ternura do eu lírico pela criança.
  • A partir do título, o poema se presta ao elogio do indígena brasileiro e de sua cultura, que se realiza no resgate da língua indígena (“Cunhantã”, “Siquê”, “Uêrêquitáua”), e na resistência física superior do nativo em comparação com a do homem branco, desde tenra idade: “Quatro anos. Escurinha. O riso gutural da raça. / Piá branca nenhuma corria mais do que ela” (v. 3 e 4).
  • A mistura de elementos narrativos ao discurso poético — como o diálogo (segunda estrofe) — e o registro de elementos do cotidiano, formando um cenário urbano — em trechos como “Minha mãe (...) estava costurando” (v. 8), “O ventilador era a coisa que roda” (v. 14) — atualizam a poesia indianista para a modernidade valorizada na segunda fase do movimento modernista.
  • O resgate da temática do regionalismo no poema modernista tem índices na localização geográfica do texto (v. 1) e na caracterização do povo da região Norte do Brasil, tanto pelos aspectos físicos (v. 3 e 4) quanto pela variante linguística regional, como em “tuíra” (v. 7), “não vi fogo” (v. 10), e “Ai Zizus” (v. 15).
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