O domínio da norma culta de nada vai adiantar a uma pessoa que não
tenha todos os dentes, que não tenha casa decente para morar, água
encanada, luz elétrica e rede de esgoto. O domínio da norma culta
de nada vai servir a uma pessoa que não tenha acesso às tecnologias
modernas, aos avanços da medicina, aos empregos bem remunerados,
à participação ativa e consciente nas decisões políticas que afetam
sua vida e a de seus concidadãos. O domínio da norma culta de nada
vai adiantar a uma pessoa que não tenha seus direitos de cidadão
reconhecidos plenamente, a uma pessoa que viva numa zona rural onde
um punhado de senhores feudais controlam extensões gigantescas de
terra fértil, enquanto milhões de famílias de lavradores sem-terra não
têm o que comer. Achar que basta ensinar a norma culta a uma criança
pobre para que ela “suba na vida” é o mesmo que achar que é preciso
aumentar o número de policiais na rua e de vagas nas penitenciárias
para resolver o problema da violência urbana.
BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. São Paulo: Loyola, 2007 (fragmento).
A repetição da expressão “O domínio da norma culta de nada vai adiantar
a uma pessoa...” é um recurso coesivo que
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