Já que minha fome não podia ser aplacada no jogo de interações sociais
que eram inconcebíveis por minha própria condição – e compreendi
isso mais tarde, essa compaixão nos olhos de minha salvadora, pois
algum dia já se viu uma menina pobre penetrar na embriaguez da
linguagem e nela se exercitar junto com os outros? –, ela o seria nos
livros. Pela primeira vez toquei num livro. Eu tinha visto os maiores da
turma olharem para traços invisíveis, como que movidos pela mesma
força, e, mergulhado no silêncio, tirarem do papel morto alguma coisa
que parecia viva.
Aprendi a ler sem ninguém saber. A professora ainda repetia as
letras para as outras crianças, e eu já conhecia havia muito tempo a
solidariedade que tece os sinais escritos, suas infinitas combinações e os
sons maravilhosos que tinham me investido naquele local, no primeiro
dia, quando ela dissera meu nome. Ninguém soube. Li como alucinada,
primeiro escondido, depois, quando o tempo normal da aprendizagem
me pareceu superado, na cara de todo mundo, mas tomando cuidado
de dissimular o prazer e o interesse que tirava daquilo.
A criança fraca se tornara uma alma faminta.
BARBERY, Muriel. A elegância do ouriço. SP: Companhia das letras: 2008, p. 45.
O texto inicia-se pela expressão “já que”, que tem como função
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