[...] Minhas artérias entraram em
constrição violenta, o peito doeu-me todo e eu me
levantei e fui até a rua para respirar. Sei que
morrerei um dia de uma emoção assim. Mas não
adiantou. Lá estava o capim brotando de entre os
paralelepípedos, lá estava a ladeira subindo para
o verde úmido do morro, ali à esquerda ficava um
antigo apartamento onde eu morei. Naquele
tempo eu ganhava 900 mil réis por mês e
estudava para o concurso do Itamaraty. Dava
apertado, mas dava.
Por que será que só no Brasil brota capim
de entre os paralelepípedos, e particularmente na
Gávea? Existe por acaso um sorvete como o do
seu Morais às margens do Ródano? Veem-se
jamais as silhuetas de Lúcio Rangel e Paulo
Mendes Campos numa cervejaria em Munique?
Quem já viu passar a garota de Ipanema em
Saint-Tropez?
Adeus, mãe Europa. Tão cedo não te
quero ver. Teus olhos se endureceram na visão de
muitas guerras. Tua alma se perdeu. Teu corpo se
gastou. Adeus, velha argentária. Guarda os teus
tesouros, os teus símbolos, as tuas catedrais.
Quero agora dormir em berço esplêndido, entre
meus vivos e meus mortos, ao som do mar e à luz
de um céu profundo. Malgrado o meu muito lutar
contra, eis que me vou lentamente tornando —
logo eu! — num isolacionista brasileiro.
MORAES, V. Minha terra tem palmeiras. In:
FERRAZ, E. (Org.) Para uma menina com uma flor.
São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 96-98.
Disponível em:
https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/19891/minh
a-terra-tem-palmeiras.
A palavra “constrição”, no trecho “Minhas
artérias entraram em constrição violenta”,
significa:
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