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#2063175
Texto da Questão:

Texto 1 - O egoísmo por detrás do eu lírico

                                                     Natália Cola de Paula


    É sabido que a arte da escrita tem a virtude de criar, eternizar, denunciar e embelezar a vida. Ademais, é clichê dizer o quanto ela transmite conhecimento, histórias, momentos e sentimentos, fazendo-nos viajar sem sair do aconchego de nossas casas. Enfim, a escrita tem todas essas funções e características, mas é sob outro prisma que será abordada neste artigo. “A priori”, vamos analisar a escrita como instrumento de comunicação, com a existência de dois polos: o do emissor da mensagem, que é o escritor, e o do receptor, nosso caro leitor. Muito fala-se dos desdobramentos e reflexos dessa mensagem no leitor, aquele que a recebe, interpreta e extrai dela o que lhe aprouver. Porém, pouco se menciona a respeito dos reflexos que essa mensagem exerce sobre o autor, sobre o próprio escritor. É olhando através desse prisma que analisaremos a escrita.

    Primeiramente, o poeta ou o escritor tem seu lado altruísta, quer sim ser lido, deseja alcançar um elevado número de leitores, sonha que seu texto inspire e mude a vida de alguém, ou apenas que lhe abra um leve sorriso e aquiete o coração. Mas o que poucos sabem é que o poeta é também egoísta, ele escreve, em primeiro lugar, para si, para sanar suas necessidades. Como assim? Quais necessidades são essas? Muito simples, necessidade de expressar-se, de desabafo, de descargo emocional, de fuga do mundo externo, de abrigo na arte. Antes de mais nada, os autores são seres humanos, não estão isentos dos problemas cotidianos, das dores, das tristezas e nem do amor. Logo, eles buscam na escrita alento, ou usam-na como crítica social, denunciadora do que veem e sentem. De todo modo, os autores, como seres humanos, pais, filhos, alunos, cidadãos, apaixonados e profissionais que são, precisam da escrita mais, talvez, do que ela precisa deles para existir. É esse o ponto essencial de tal artigo, fazê-los compreender que a escrita é a vida pulsando no escritor, sem ela, ele simplesmente não vive, pois não se expressa.

(...)

    Há uma bela reflexão feita por Clarisse Lispector que exprime exatamente o caráter egoístico, mas nem por isso desnobrecedor, do eu lírico dos autores. “Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém, provavelmente a minha própria vida” (Clarisse Lispector - Um sopro de vida). Certamente, os autores escrevem para salvarem-se de si mesmos e das pressões do mundo, escrevem para se entenderem; organizam pensamentos, opiniões, críticas e amores que estão lhe atormentando o juízo, cuja transposição para o papel parece ser seu álibi. Dessa forma, o autor é tão dependente da escrita quanto ela desse. O eu lírico do poeta, por exemplo, necessita da poesia para sobreviver, não apenas a faz por hobby ou prazer, a faz porque ela o mantém vivo, e sem ela, o poeta, nada mais é do que um mero mortal sem identidade. Fazendo uma analogia, a poesia está para o poeta como a lágrima está para aquele que sofre. Ambas têm o poder de afagar o coração, propiciar aquela sensação de alívio e descarregar um peso que cansava a alma. O choro não é sinônimo de tristeza, mas sim de liberdade, assim como a poesia, que liberta o poeta de suas próprias amarras, trazendo-o à luz de fora da caverna. Portanto, a poesia é para o poeta e o texto é para o escritor, pura liberdade, pura identidade, pura vida transposta em palavras.


Fonte: adaptado de <http://obviousmag.org/realidades_sonhos/2017/o-egoismo-por-detras-do-eu-lirico.html>. Acesso em: 10 jan. 2018. 


Natália Cola de Paula, no texto “O egoísmo por detrás do eu lírico”, discute

  • a relação entre a escrita e o escritor. Segundo a autora, o escritor, ao escrever, pensa, simultaneamente, em si, naquilo que precisa externalizar para se sentir bem, e no outro, nas consequências desses escritos para quem lê. Assim, a escrita é o que mantém o escrito vivo.
  • a necessidade de escrita para quem escreve. Segundo a autora, o escritor pensa, prioritariamente, nos sentimentos dele ao escrever, o que desnobrece a sua escrita, por adquirir um caráter egoísta. Dessa forma, o eu lírico do escritor é quem o dá a liberdade necessária para viver.
  • os efeitos que a escrita causa em quem a escreve. Segundo a autora, é de vasto conhecimento o lado egoísta do poeta, que escreve para externalizar seus próprios sentimentos e para “salvar-se”. Com isso, o autor usa a escrita e a emoção para se prender em seu próprio mundo.
  • as características da escrita do eu lírico. Segundo a autora, o eu lírico de cada escritor tem a necessidade única de escrever para o outro, para que o leitor sinta as emoções do texto e reconheça ali a sua realidade. Assim, o eu lírico do escritor é quem dá luz à vida do leitor, ao transpor sentimentos em palavras.
  • os reflexos da escrita sobre o autor. Segundo a autora, o escritor, em um ato egoísta, escreve apenas para expressar os sentimentos e expor suas alegrias, tristezas e emoções de ser humano. A escrita, então, não é o que dá vida ao escritor, mas é o que lhe causa a sensação de liberdade.
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