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#2229866
Texto da Questão:

TEXTO 01

Disparada
Geraldo Vandré/Theo de Barros

Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar
Eu venho lá do sertão, eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão e posso não lhe agradar
Aprendi a dizer não, ver a morte sem chorar
E a morte, o destino, tudo, a morte e o destino, tudo
Estava fora do lugar, eu vivo pra consertar

Na boiada já fui boi, mas um dia me montei
Não por um motivo meu, ou de quem comigo houvesse
Que qualquer querer tivesse, porém por necessidade
Do dono de uma boiada cujo vaqueiro morreu

Boiadeiro muito tempo, laço firme e braço forte
Muito gado, muita gente, pela vida segurei
Seguia como num sonho, e boiadeiro era um rei
Mas o mundo foi rodando nas patas do meu cavalo
E nos sonhos que fui sonhando, as visões se clareando
As visões se clareando, até que um dia acordei

Então não pude seguir valente lugar-tenente
E dono de gado e gente, porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente
Se você não concordar, não posso me desculpar
Não canto pra enganar, vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado, vou cantar noutro lugar

Na boiada já fui boi, boiadeiro já fui rei
Não por mim nem por ninguém, que junto comigo houvesse
Que quisesse ou que pudesse, por qualquer coisa de seu
Por qualquer coisa de seu querer ir mais longe do que eu

Mas o mundo foi rodando nas patas do meu cavalo
E já que um dia montei agora sou cavaleiro
Laço firme e braço forte num reino que não tem rei

A música “Disparada” (Texto 01) foi inscrita no Festival da Record de 1966, e defendida pelo intérprete Jair Rodrigues.
Pode-se inferir da letra que o “eu-lírico”:

  • Contesta, com seus versos, a alienação por que passa o povo (“boi”), mas não sinaliza para a capacidade de tomada de consciência daqueles que são oprimidos.
  • Releva indignação com o comportamento das pessoas (“gente é diferente”), uma vez que, ao não se permitirem ser “ferradas”, assumem uma postura alienada acerca da realidade.
  • Pede licença para cantar “as coisas” que irá “contar: o direito à terra e a viver dela, em uma defesa explícita da reforma agrária.
  • Assume uma postura crítica da realidade, em uma linguagem metafórica, no combate às opressões e às injustiças sociais, muito bem sintetizada no trecho “num reino que não tem rei”.
  • Defende a tomada de consciência daqueles tidos como oprimidos em uma sociedade marcada pela exclusão e opressão, mas se percebe incapaz de transformar sua própria condição de “boi” (oprimido / manobrado).
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