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#2631552

“Está em curso no Brasil um verdadeiro genocídio. A violência tem se tornado um flagelo para toda a sociedade, difundindo o sofrimento, generalizando o medo e produzindo danos profundos na economia. Entretanto, os efeitos mais graves da nossa barbárie cotidiana não se distribuem aleatoriamente. Como tudo no Brasil, também a vitimização letal se distribui de forma desigual: são sobretudo os jovens pobres e negros, do sexo masculino, entre 15 e 24 anos, que têm pagado com a vida o preço da nossa insensatez coletiva. O problema alcançou um ponto tão grave que já há déficit de jovens do sexo masculino na estrutura demográfica brasileira. (...) Um jovem pobre e negro caminhando pelas ruas de uma grande cidade brasileira é um ser socialmente invisível. Uma das formas mais eficientes de tornar alguém invisível é projetar sobre ele ou ela um estigma, um preconceito. (...) Um dia, um traficante dá a um desses jovens uma arma. Quando um desses meninos nos parar na esquina, apontandonos esta arma, estará provocando em cada um de nós um sentimento – o sentimento do medo, que é negativo, mas é um sentimento. Ao fazê-lo, saltará da sombra em que desaparecera e se tornará visível. A arma será o passaporte para a visibilidade. (...) O jovem pede a carteira; aponta a arma para minha cabeça e pede a carteira. Pede, não. Ordena. Velha fórmula: a bolsa ou a vida. Leva o dinheiro. Com a grana, compra um tênis de marca.”


Soares, L.E. “Juventude e violência no Brasil contemporâneo. Em MAIA, M. S. (org) Por uma ética do cuidado. Garamond, p.323-355. (adaptado).


Do dilema entre se esse fenômeno é matéria para a psicologia ou é caso de polícia, a posição de Soares é a de que:

  • o preço da consagração do viés psicológico é a violência, e, por esse motivo, a punição eficaz é a solução necessária, na medida em que o sistema carcerário brasileiro está preparado para a ressocialização.
  • a violência no Brasil é um caso deprofecia que se auto cumpree, sendo assim, não há viés da psicologia ou do sistema de segurança pública que resulte em ações preventivas porque os resultados não atingem a mudança necessária.
  • é necessário incluir os fatores genéticos no que se refere à predisposição para a violência, e desta forma, a situação há de ter uma abordagem que viabilize a mensuração adequada sobre o perfil do agressor em situações de violência.
  • ambas as abordagens são necessárias, adequadas, justas e verdadeiras e deveriam conduzir a posturas e políticas públicas distintas, porém simultâneas e complementares.
  • as políticas públicas brasileiras são ineficazes, porque não levam em consideração o tratamento diferente para os diferentes; brancos e negros têm, em essência, as mesmas opções de escolha entre agir para o bem ou para o mal.
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