AZEVEDO, Luiz Maurício. O “Quarto de despejo” e o spread literário. Correio do Povo,
Porto Alegre, 3 out. 2020.
Ao tecer comentários relativos à recepção crítica de Quarto de Despejo no decorrer desses
60 anos de lançamento, Luiz Maurício Azevedo faz ponderações sobre o processo de
valoração de uma obra e, em última instância, sobre a natureza mesma do objeto literário.
Em Teoria da literatura: uma introdução, Terry Eagleton (2006) procura justamente discutir
as implicações das variadas tentativas de se definir literatura, o que permite aproximar o
debate suscitado pelo crítico brasileiro das ideias veiculadas pelo filósofo britânico,
salvaguardadas as diferenças de cada abordagem. Leia as afirmativas a seguir, em que se avaliam posições de Azevedo à luz do exposto no
estudo de Eagleton. I. Por considerar que “o exercício da crítica tem muito a dizer sobre as coisas e sobre
o modo como o mundo funciona”, reputando ser “especificamente por isso que
sobre alguns livros a intelligentsia se sente compelida a dizer muito pouco ou quase
nada” (linhas 38-40), Azevedo mostra, em conformidade com Eagleton, que
julgamentos e silenciamentos estão ligados a um sistema de crenças e de
preconceitos estruturado socialmente, o qual se associa ao modo pelo qual se
configuram as relações de poder.
II. Quando Azevedo reconhece em “Quarto de despejo” a presença de “uma matéria
muito mais áspera que as utilizadas pela maioria esmagadora de seus pares”, em
cujos textos constata-se um “conforto estético” compatível ao de sua experiência
empírica (linhas 49-51), provavelmente está aludindo ao conceito de
desfamiliarização ou estranhamento, que decorre das contribuições trazidas pelos
formalistas russos e possibilita a Eagleton identificar o modo pelo qual se manifesta
a literariedade.
III. A menção à “profundidade escura” do “modernismo cru” de Carolina Maria de
Jesus, bem como à “complexidade sufocante das estratégias que criou para
dissolver a realidade e fazer com que ela coubesse na miúda sintaxe de sua
escolarização precária” (linhas 68-70), sugere que a linguagem presente em Quarto
de Despejo não atinge o critério de beleza na escrita, o qual Eagleton, a partir dos
postulados estabelecidos pela retórica, identifica como um dos requisitos funcionais
para a distinção entre literário e não literário.
Está(ão) correta(s) apenas a(s) afirmativa(s)
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